O setor calçadista brasileiro registrou, em julho, o primeiro déficit mensal de sua balança comercial desde o início da série histórica, em 1997. No período, o Brasil importou aproximadamente US$ 66 milhões em calçados, enquanto as exportações ficaram em cerca de US$ 62,4 milhões. Mais do que um resultado pontual, o dado expõe um cenário que merece atenção: enquanto os produtos importados avançam no mercado nacional, a indústria brasileira encontra dificuldades cada vez maiores para manter sua competitividade no exterior.
O problema não está apenas no aumento das importações. Entre janeiro e julho, as compras externas cresceram cerca de 10%, enquanto as exportações brasileiras de calçados recuaram aproximadamente 18% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, houve uma retração relevante das vendas para mercados estratégicos, como Estados Unidos e Argentina, enquanto produtos asiáticos ampliam espaço no mercado interno. As novas sobretaxas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, que também alcançam o setor calçadista, acrescentam mais uma camada de pressão sobre uma indústria que já vinha enfrentando perda de espaço no comércio internacional.
Para as empresas, esse movimento exige uma leitura que vai além dos números da balança comercial. Quando a concorrência externa cresce ao mesmo tempo em que mercados tradicionais se tornam mais difíceis de acessar, margens, preços, produção, contratos e decisões de investimento passam a ser diretamente afetados. A resposta não pode se limitar à redução de custos. É necessário revisar estruturas, planejamento tributário, cadeias de fornecimento, mercados de destino e estratégias comerciais para preservar competitividade em um ambiente internacional cada vez mais disputado.
O déficit registrado em julho deve ser entendido como um sinal de alerta. O Brasil possui uma cadeia calçadista consolidada, com forte presença industrial e exportadora, especialmente no Rio Grande do Sul, mas tradição produtiva não é suficiente para garantir competitividade. Em um cenário de maior pressão internacional e mudanças nas relações comerciais, empresas que anteciparem riscos e reorganizarem suas estratégias terão melhores condições de proteger margens, mercados e capacidade de crescimento.
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